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A violência contra mulheres transgênero é tão frequente que acaba sendo normalizada. Essa é apenas uma das conclusões da 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do Instituto DataSenado e da empresa Nexus. Pela primeira vez, desde 2005, o levantamento traz dados específicos sobre a experiência de trans e travestis. O psicólogo e chefe do Serviço de Pesquisa e Análise do DataSenado, Rolf Regehr, comenta os achados da pesquisa e como as leis podem proteger pessoas como a colaboradora do Senado Scarlety Pereira, que fala das dificuldades cotidianas por ser mulher trans e negra. As informações do levantamento passarão a fazer parte do Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma interativa do Observatório da Mulher contra a Violência, mantido pelo Senado. O Mapa sistematiza dados públicos oficiais sobre a violência contra a mulher.

A violência contra mulheres transgênero é cotidiana e acontece em casa, na rua, nos espaços privados e nos órgãos públicos. É o que mostra a edição de número 11 da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do Instituto DataSenado e da empresa Nexus. Pela primeira vez, desde 2005, o levantamento traz dados específicos sobre a experiência de trans e travestis. Muitas das 43 entrevistadas, ao serem questionadas se sofriam violência, responderam a princípio que “não”. Mas as mesmas, quando perguntadas se já foram xingadas, mal atendidas ou hostilizadas pelo fato de serem quem são, aí, a resposta era que “SIM”. Que “SEMPRE”. O psicólogo do DataSenado, Rolf Regehr, comenta que esse resultado é preocupante porque aponta como agressões cotidianas acabam normalizadas no caso das mulheres trans:

(Rolf Regehr) “Tem uma diferença entre o que a pessoa percebe como violência – porque ela diz ‘Não, não sofri violência’ – mas, quando a gente mostra as situações de violência, elas dizem que sim. Então, o que a gente levantou como hipótese para isso é que as violências que elas sofrem são constantes, são em todo os lugares e isso acaba sendo normalizado.”

Violências psicológicas foram relatadas por 95% das mulheres trans e travestis entrevistadas e atravessam as experiências familiares, de trabalho e de estudo. 40% sofreram agressões verbais; 17% físicas e 12% violência sexual. Poucas, no entanto, procuraram ajuda das autoridades. Isso pode ser explicado por outros dados da mesma pesquisa: 38% das entrevistadas já foram mal atendidas em órgãos públicos e 20% foram impedidas de entrar nesses espaços. Rolf Regerhr assinala que esse tratamento discriminatório desestimula a denúncia e mina a confiança das mulheres transgênero em quem deveria oferecer apoio e proteção. Outra hipótese que será investigada em uma próxima pesquisa, segundo ele, é a desinformação sobre os próprios direitos:

(Rolf Regehr) “A maioria das mulheres que sofreram violência não denunciaram. Por que não denunciaram? Imagine duas hipóteses: a primeira – as mulheres trans não sabem que a Lei Maria da Penha protege elas nesse sentido ou elas não confiam nos órgãos de denúncia. Porque elas já sofrem violência em todos os lugares – em lugares públicos, hospital, órgãos públicos em geral – por que na delegacia vai ser diferente?”

70% das entrevistadas na pesquisa sobre violência contra mulheres trans são pretas, pardas ou indígenas. Trata-se de um perfil que enfrenta, além da transfobia, o racismo.
A Scarlety Pereira é uma mulher trans negra que trabalha há três anos no Senado Federal e sabe bem o que é viver essa dupla violência cotidiana:

(Scarlety Pereira) “É muito complicado porque as pessoas já marginalizam a gente por sermos pretas e marginalizam, também, por ser trans. Eu já passei por várias situações chatas e constrangedoras, mas isso fala mais sobre eles. Eu costumo não consumir isso pra minha vida para não me afetar, de certa forma.”

As informações do levantamento, apesar de terem sido feitas com um grupo pequeno e terem um caráter mais exploratório, passarão a fazer parte do Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma interativa do Observatório da Mulher contra a Violência, do Senado, desenvolvida em parceria com a organização Gênero e Número e com o Instituto Natura. O Mapa sistematiza dados públicos oficiais sobre a violência contra a mulher.

Da Rádio Senado, Marcela Diniz.

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